#Imersão: A Colcha de Retalhos Simbólicos

Para Maria de Cássia Germano Alvarenga Lanna

Finalizar um luto nunca é fácil. É um trabalho forçado, penoso, daqueles que você odeia. É quase um trabalho escravo. Nesse processo, por muitas e muitas vezes, pensamos que nossa alma não vai parar de chorar. Ela chora, desesperadamente, tentando entender o inevitável. Às vezes, é um choro forte, outras vezes, um choro silencioso, invisível. As lágrimas escorrem pelo rosto, te inundam de sentimentos que você nem sabia que existia em você. Não tem jeito. Não há quem aguente segurar quando a enchente chega. E ela sempre chega.

Em certos dias, a inércia, por horas, toma conta de você. O olhar, para o nada, te consome vida. O tempo passa e você nem percebe. Sim, é inacreditável a perplexidade de uma perda. É, simplesmente, assim: desesperador.

Ao mesmo tempo, tudo aconteceu exatamente como foi, como tem que ser. Não há o que fazer. A pessoa se foi, você ficou. Está vivo e precisa viver. Os anos passam e você, ainda, se pergunta se aquilo tudo foi mesmo verdade. Até que, aos poucos, as coisas voltam para seus devidos lugares: você trabalha normalmente; a rua continua com o mesmo nome; as pessoas não se lembram mais de quem se foi; não foi feriado mundial. Está tudo igual, menos você. É isso, simples e absolutamente, isso. Aos poucos, a morte vai se ressignificando. A perda ganha explicações racionais. E tudo volta ao normal. Você, não completamente.

Esse texto fala sobre isso, expõe meu processo de luto e como ele foi ressignificado pelas mãos de uma pessoa muito amada. Falarei de um luto costurado por mãos de amor, sobre a perda e, ao mesmo tempo, o ganho de minha mãe, proporcionado pelas costuras mágicas de Cassinha, uma amiga enfermeira da Gerência de Saúde Ocupacional. Mas, por hora, vamos ao começo.

O barulho da máquina de costura

Havia moldes espalhados por toda sala. Seu forte não era a organização. As linhas se misturavam aos alfinetes, que se misturavam a tecidos, que escondiam pedaços de papéis, delicadamente, moldados. Eram muitas réguas de madeira, de todas as espécies e formatos, muitas e muitas revistas de moda. Encima da mesa, ficava toda sua produção, um verdadeiro caos na terra.

Ela era uma senhora morena. Os cabelos estavam sempre presos com um grande rabo de cavalo. Os óculos se acomodavam na ponta do nariz. Às vezes, havia um cigarro apoiado do lado direito da boca. Essa era minha mãe. Em seu caos, ela se encontrava. Era bonito vê-la trabalhar com os panos. Um giz em formato de triângulo traçava o tecido. Suas mãos deslizavam sobre ele. Eram riscos e riscos brancos. A tesoura seguia os riscos. Eu, não entendia nada. Ela permanecia, ali, por horas e horas, entendendo tudo.

O barulho da máquina de costura era alto. Ela soltava suas notas pelo ar. Bastava um toque sutil em um pedal preto e o som saia. Seu pé pressionava o pedal que lançava a sonoridade no ambiente. O tecido, pousado em seu colo, escorria para o outro lado da máquina, enquanto havia som. O som parava, o tecido parava. Acho que essa era sua dança, uma dança costurada. Minha mãe, nesse caso, coreografava cada peça.

De repente, no meio da bagunça, eis que surgi uma saia vermelha com bolinhas pretas. Tecido coreografado. Visto a saia e, como num passe de mágica, ela se acomoda em meu corpo perfeitamente. Foi feita pra mim. Nesse mesmo ritual, brotavam blusas, vestidos, capas de almofadas, um quadro de pano para pendurar na porta do quarto. E era assim que ela se encontrava na bagunça, criava-se e recriava-se, combinações perfeitas surgidas da imperfeição. Que saudade eu tenho do som daquela máquina de costura.

O silenciar da máquina

Mas, um dia, isso tudo se foi. Não havia mais panos, lápis, réguas e tesouras. As rendas não coloriam mais a minha vida. O silêncio tomou conta da máquina de costura. Ela se tornou um enfeite mudo em minha casa. Restou uma imensa saudade da bagunça. Ficou o vazio de sua falta, um luto que me parecia eterno.

No meu caos, precisei reorganizar a confusão: interna e externa. Internamente, sabia que precisaria de tempo. Externamente, precisava me mover. Comecei a arrumar as coisas, tentando colocá-la no lugar. Foi quando encontro uma cômoda cheia de retalhos de tecidos. Eram vários e vários panos. Muitos, eu já conhecia. Eram as rendas, os botões, as linhas e mais linhas. Tecidos de todos os tipos e cores. Várias e várias texturas. Olho para aquilo tudo, meio perdida. Não imaginava quem pudesse gostar de receber os tecidos velhos e um pouco de minha saudade.

Fixada em encontrar uma pessoa que costurasse, lembro-me de Cassinha, a enfermeira que trabalha comigo. Fico feliz com a possibilidade em ver tudo aquilo aproveitado. Imediatamente, pego meu celular e envio uma mensagem a ela. Tiro algumas fotos e as mando também.

Mais que depressa, ela aceita receber o caos de minha mãe. Fico feliz e agradecida, pois sabia que aquilo tudo estaria em boas mãos, seria reutilizado, aproveitado. Em abril do ano de 2018 entrego, à Cassinha, sacolas e sacolas de retalhos de tecidos.

A costura simbólica de Cassinha

O tempo se passou. Meu luto, aos poucos, ia se processando. A dor diminuía e o apego também. Foi quando chega meu aniversário, em 2019.

Chego no trabalho à espera de mais um dia normal. Cumprimento as pessoas que me recebem com um caloroso abraço. Abro a porta de minha sala e lá estava ela: linda, imensa, colorida, bordada. Era uma colcha de retalhos.

Fico parada alguns minutos, na porta, imóvel. Nesse momento, a inércia se ressignifica. Ela ganhou outro sentido. Não me perdia no tempo, mas reencontrava-me. Meus olhos começam a derramar lágrimas. Vejo-me chorando compulsivamente. A enchente voltou, também ressignificada. As lágrimas agora eram coloridas.

Entro e me sento. Fico um tempo olhando para aquela colcha de retalhos. Não era uma colcha comum. Eu conhecia cada pedaço, cada tecido, cada renda, cada botão. Vi meu vestido na colcha. Lembrei do sorriso de minha mãe me entregando-o. Vi minha calça de dança. Lembrei de quando íamos para as aulas de balet, das conversas, dos pastéis com caldo de cana que comíamos e tomávamos juntas. Vi minha saia vermelha de bolinhas pretas. Lembrei do aniversário da Agnes, era festa dos anos 60, a saia de poá foi, cuidadosamente, desenhada e confeccionada por ela. Vi um o quadro de pano que está na porta do quarto da Agnes, ele também estava na colcha. Eram muitas e muitas histórias. Infinitas lembranças. Mergulhando na colcha, imergi em meu passado, percebi que não havia perdido nada, apenas ganhado a oportunidade de viver tudo isso. Muitas histórias.

A colcha não era apenas panos costurados. Ela era uma colcha de retalhos simbólicos, representava uma história de amor vivida com minha mãe. Cassinha, ao costurar panos, me costurou também, costurou meu luto, costurou meus pedaços, bordou minhas cicatrizes, enfeitou minha dor com rendas amarelas e vermelhas, transformou minhas lágrimas em botões. Nessa costura, eu me vi, vi minha perda e, com isso, vi tudo que ganhei em minha vida. Cassinha terminou o que minha mãe não conseguiu terminar e, com isso, minha mãe descansou dentro de mim.

Hoje, a colcha de retalhos simbólicos se tornou meu maior tesouro e esse texto é somente para agradecer as diversas possibilidades que a vida me deu. Além de ter vivido tudo que retratei aqui, conheci Cassinha, a enfermeira com mãos de amor, que retratou minha história e ressignificou minha mãe em uma grande colcha de retalhos simbólicos. Ela foi a verdadeira enfermeira de minha alma!

Posted In

3 Comments

  1. Adorei o texto, fiquei muito emocionada mesmo. Minha intenção alcançada. No momento difícil que você passava, achei que a presença dela, da forma que fosse lhe faria bem. Acho que fez.. Beijos, Cassinha.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s