A poesia imersa: narrativas poéticas do olhar que olha

Esse é um espaço que fala um pouco sobre mim, sobre minha tentativa em retratar poeticamente aquilo que sinto, mas nem sempre vejo. Não se trata de pare(ser) aquilo que não sou, poeta. Mas, refere-se à necessidade em trazer um pouco de poesia para minha vida.

A Insonia Insana de uma Alma Penada (Danielle T T monteiro)

 Oh, minha insônia insana!  
Existe vida em você.
És habitante de almas penadas.
Da cidade lentificada pelo olhar da madrugada.
Alguns dormem, mas nem todos sonham.
Da janela, reconheço uma alma penada.
Uma jovem, no prédio ao lado, caminhava solitária em seu quarto.
Sempre na mesma direção.
Sem caminho, não havia luz.
Típica escuridão de alma penada.
No bar, o copo já estava vazio sobre a mesa.
A bebida foi o combustível da alma.
Uma alma penada procurava conforto.
Era um velho enfraquecido em sua insanidade.
Sono trazido pela embriaguez, curava a dor de uma consciência inconstante.
Você perdeu!
Ele dormiu.
A mulher, na esquina, não esperava por mais um trabalho.
Era tarde, ela estava sozinha e sonhava acordada.
Alma penada, penava a noite.
Desfazia seu corpo em camas.
Desejava cama, a sua cama.
Você precisava estar lá, pois a mantinha acordada.
Era a garantia o pão de todo dia.
Sob o viaduto, outra alma penada acalentava o filho.
Escuridão fria aquecida no abraço daquele que acolhe.
O acolhido, pequeno penante, sem culpa, sem dor, penava sem motivo para penar.
Ingrata insônia.
Tu és tempo infinito.
Relógio sem ponteiro.
Terra parada.
Infinita ansiedade em uma hora paralisada.
De repente, como num passe de mágica, a aceleração adentra a cena.
Levanta alma penada.
Acorda a cidade.
Os ônibus gritam, ainda no silêncio do amanhecer.
Coletam as almas.
Uma jovem entra.
Um velho entra.
Uma mulher entra.
Mãe e filho entram.
Era o grande encontro, encontro das almas penadas.
Elas não se viam, nem se reconheciam.
E o dia segue seu percurso.
(Quase normal)
A luz devora os minutos do relógio.
Rapidez e agilidade no passar das horas.
As almas estão cansadas.
Penaram à noite.
Mas aí, você retorna, cíclica.
É vida!
Torna-se a dona da noite.
Alimentando-se da luz das enfraquecidas almas penadas.
E elas?
Continuam penando.

Sexo Praia (Danielle T T Monteiro)

Sua água chega sem avisar. 
Gelada e salgada.
Adentra minhas entranhas.
Inunda-me de vida.
Mas, é frio, dono de si.
Solitária, permaneço imóvel, enrijecida.
Olho para o sol e seu calor me aquece.
Fecho meus olhos.
Penso no nada e sorrio sozinha.
A água se avapora.
Eu a sinto descolar do meu corpo.
O frio vai se transformando em uma leve brisa.
E, aos poucos, vou me desfazendo.
Transformo-me em grãos.
Sinto-me leve e suave.
Mas logo ele retorna.
É onda sagaz.
Água salgada e gelada.
Força que penetra.
Fazemos amor nesse vai e vem.
Somos dois e somos um.
A falta de um no outro.
Complemento.
Eu, areia.
Ele, mar.

Aquários Imaginários (Danielle T T Monteiro)

 Às vezes, penso que as paredes são imaginárias.  
Eu não consigo vê-las.
Nado, nado, nado e bato sempre no mesmo lugar.
É o nada transvestido em transparência.
Eu posso senti-lo.
Talvez seja um bloqueio imaginário, fruto de uma mente paralisada.
Talvez seja a rotina de estar sempre indo na mesma direção.
O mundo, ao redor de minhas paredes, muda.
Tudo se transforma.
Aqui dentro, a conservação me consome.
Pedras são adereços, esperando a visão atenta daquele que passa.
Tudo é fim.
Nada muda.
E minha permanência se mantém inócua.
Igualdade monótona da mesmice.
Por hora, penso estar em uma armadilha, mas não posso vê-la.
Eu posso senti-la.
Por nanosegundos, me imagino saindo daqui.
Nado, nado, nado.
Iludida, me deparo com o real do bloqueio imaginário.
Bato nas paredes.
Elas estão lá, bem em minha frente.
Não tem jeito.
Prefiro pensar que são paredes de vidro.
Gosto da ideia de viver dentro de um aquário.
Há conforto.
Há segurança.
Sem medo, eu continuo viva.
Sinto-me como um belo e lindo peixinho dourado.
Mas, não suporto a ideia de viver como um peixe.
Descubro que não nado.
Perambulo por aí.
Talvez, eu seja como um peixe.
Mas, um peixe fora d’água.
Dentro de um grande aquário sem água.
São diversos os aquários.
Inúmeros os aquários imaginários.
Eu posso senti-los.
Vivo dentro de um deles.

O encontro das luzes douradas (Danielle T. T. Monteiro)Para Luisa Pieroni

 Ela é luz.  
Começo de nome que marcou a vida.
Chegou risonha, meiga.
Meio sem graça, muito engraçada.
Amor? Não cabia no peito.
Amizade construída, sentida.
União de mundos contraditórios.
Paradoxo do amor que é.

Ela é luz.
A brisa torna-se furação.
A grande mulher dourada ganha o mundo.
É sal que derrete neve.
É madeira queimada na lareira.
Fumaça na chaminé.
Vive a noite de dia, e o dia de noite.
A cidade gelada esquenta seu coração.

Ela é luz.
Se uniu no amor.
E o distante se fez perto.
Encontro entre dois belos.
Duas grandes luzes douradas.
Dourado que complementa dourado.
Era o aconchego no tapete do quarto.
A bebida vermelha do Natal encantado.

Ela é luz.
A pequena semente foi plantada.
Germina no ventre a grande luz.
A imagem, ainda retorcida, ganha sentido.
É um bebê.
Surge a terceira luz dourada.
Complementa o complemento.
Plenitude infinita do amor.

Ela é luz.
Há dentro dela dois corações.
Amor dobrado, multiplicado.
Rega a semente com sensibilidade.
Espera, a cada dia, seu florescer.
Juntos, os três crescem.
Esperam o grande encontro.
O dia de união entre as três grandes luzes douradas.

Cacos Humanos ( Danielle T T Monteiro)

Virou caco.
Ela se quebrou.
Despedaçou-se.
Estilhaços cortantes de uma juventude destruída.
Dura e crua realidade.

Ela era vida vivida intensamente.
Não inteiramente, fragmentava-se.
Sem idade.
Sem cortes.

Virou caco.
Governada pelo imediato, era nada.
Não havia amanhã, nem depois.
Se perdia no tempo.
Morria no tempo.

Gostava da proximidade distante.
Tinha a todos, não amava ninguém.
Bocas misturadas, torturadas.
Corpos abusados.

Virou caco. Era sentido cortado, anulado.
Sangrava sozinha.
Não dormia, nem sorria.
Chorava sem lágrimas.

Amante do incerto, morria aos poucos.
Sem perceber, ia-se.
Desfazia-se.
Morte descoberta em cacos.

Virou caco.
Ela era sombra.
Pequenos pedaços de si e de outros.
Humano fragmentado.
Despedaçado em cacos.

A folha (Danielle T T Monteiro)

A folha em branco sempre apavora. 
Às vezes, não há nada o que escrever.
Mas, dentro, há tudo.
Há angústia esperando ser retratada.
Ela não se transforma em palavra.
E o tempo é apenas o minuto que corre no relógio.
O grafite não representa a lágrima.
Ela não escorre no rosto.
Presa, ela é dívida.
Sem sentido, sem significado.
E o lápis se torna o som do silêncio.
Notas cortantes em um ouvido desesperado.
Não há risco na folha em branco.
Mas, são grandes os riscos.
A cabeça gira em torno de um mesmo ponto imaginário.
Cem dúvidas.
Sem respostas.
E o abismo aparece.
De um lado, a folha em branco, intacta.
Do outro, um homem apavorado, embriagado em sua lucidez insana.
Insensato abismo.
Separou o homem da palavra.
Narrativa inócua.
Silenciada no branco da folha intacta.

Duelo de Titãs (Carta ao Diabetes) (Danielle T. T. Monteiro)

Ele não chegou, assim, tão sem avisar. 
Veio aos poucos, em forma de dor e cansaço.
A cabeça não era mais dela, já era dele.
Seu corpo definhava, emagrecia na rudez de sua fome.
Não havia comida que o sustentasse.
A água não matava mais a sede.
E a vida desidratava-se diante meus olhos.
O cansaço passou a ser o parceiro dela.
A morte se tornava próxima.
Eu podia sentí-la.
O medo me consumia, enquanto ela sumia.
Nada curava sua dor.
A vida se desfazia em meus braços.
Seu sangue começou a adocicar.
Eu não sentia.
Era ele que chegava.
Batia à porta sem ser ouvido.
Não fazia som, mas não era silêncio.
Era o gemido dela.
Era meu grito.
E ele chegou...
Se desvelou no diagnóstico.
Ingrato, insano diagnóstico.
Ele sugava sua vida.
Era doce que a matava.
Açúcar que mata, não alimenta a célula.
Circula em seu sangue, livre.
Não ia em lugar nenhum.
Chorei, implorei.
E ainda com os olhos em lágrimas, tive que me levantar.
Ela precisava de mim.
Havia salvação.
O caos foi se transformando em calmaria.
Surgiu a substância que salvava a vida.
Criação da criação, salvou a criatura.
Minha criação.
Minha criatura.
Eu e ela.
Ele foi controlado.
Às vezes, ainda brigamos.
Ele tenta, te todas as maneiras.
Mas, é duelo de titãs.
Dois titãs.
Eu e ele.
Ele tenta mostrar quem manda.
Imediatamente, eu apareço.
Mãe.
Eu grito, mesmo que em um silêncio profundo:
- Essa filha é minha! Deixe-a em paz!

As raízes do céu (Danielle T. T. Monteiro)

Sua cabeça gira tentando entender.
Ela não está lá.
É força transparente.
Incontrolável.
As folhas flutuam diante seus olhos.
Ela não as vê.
Ela? Levita por aí (como uma folha).
Leve? Nem tanto.
É raiz.
Suas raízes não tocam o céu.
Cabeça imóvel.
Raízes imaginárias, simbólicas.
Sintomáticas.
Continuidade de uma vida plantada por ela.
Sem raízes, ela sofre.
Grita, chama aquele que vai salvá-la.
Pede socorro.
Não há ninguém.
Somente ela.
Imóvel.
Presa em suas próprias raízes.
Nem tão imaginárias.

Dialética do despertar de uma planta (Danielle T. T. Monteiro)

Eis que, de repente, eu acordo.  
Eu posso ver.
Era como se eu acabasse de despertar de um sono profundo, intenso, prolongado.
Talvez fosse isso mesmo.
Durante muito tempo eu vivi assim.
Eu me senti feliz em estar acordada.
Os sentimentos me afogavam, ao mesmo tempo em que serviam de boias.
Eles salvavam a minha existência.
Dialética do despertar de uma planta.

Começo a perceber as sensações.
Cada sentido se misturava em mim.
Eram cores, odores, sabores… a textura e a tecitura de minhas fibras.
Folhas maleáveis.
Dançavam com o vento frio que, de certa forma, me acariciava.
O dançar direcionava meu olhar.
Via o que via por ele, através dele.
Eu me vi pequena, frágil.
Mas, ao mesmo tempo, protegida.
Haviam outras na mesma situação.
Eu era apenas uma parte do todo.

Diante meus olhos, me deparo com um mundo estranho.
Eram pedras formatadas, água sem terra, terra sem água, luz sem fogo, bicho sem toca, homem com roupa.
Era, de alguma forma, a natureza transformada, milimetricamente construída.
Senti medo, me perdi no medo, voltei do medo.

Eu estava lá, nem tão estática, o vento me conduzia.
Eu dancei com ele.
Senti a transformação que desconstruía meu olhar.
Construção subjetiva, objetivada na diferença: a pedra não era mais pedra.
Naquele momento me vi força, natureza.
Vi que era resistência.
Eu estava viva.
Havia tempo.
Senti felicidade, me perdi no riso, voltei do riso.
Eram os pequenos sabores que me inundavam.
Dessabores revestidos de transformação.

Imergi nessa sensação.
Esqueci completamente o medo.
A natureza se transformara: a pedra não era mais pedra.
Mas eu estava lá, fazia parte da cena.
Eu era natureza.
Uma natureza transformada.

Olha(r)ares (Danielle T. T. Monteiro) †

De um mesmo lugar, 
vários olhares,
possibilidades,
ângulos,
a vista do ponto,
o ponto de vista,
o ponto de contato,
o ponto de encontro,
eu.

O Paradigma das Caixas (Danielle T. T. Monteiro)

O sim ou o não.
O preto ou o branco.
O certo ou o errado.
Ele ou ela.
Dicotomias são escolhas fechadas.
Caixas formatadas.
O formato não muda, mata.
Ela não se reconhece na caixa.
Desenha sua subjetividade fora dela.
Cria texturas, constrói.
A criatura desfaz a caixa.
Mata a criadora.
Transforma o certo em incerto.
Mistura o preto no branco.
Cria o cinza.
Gosta do cinza.
Se faz cinza.
Não há o que fazer.
O paradigma foi quebrado.
Subverteu-se o desejo.
Rasgou-se a caixa.
Ela sabe que não se encaixa.
Ela deseja não se encaixar.
Não são caixas de presentes.
Mas são grandes as caixas do presente.
Verdadeiros caixões.
E o paradigma se reconstrói.
Pois há sempre uma caixa esperando por alguém.
Um alguém como ela.
Que simplesmente deseja não se encaixar.

De perto, tão longe (Danielle T. T. Monteiro) – Música pra Jesus feita em algum dia do ano de 2007.

Eu queria apenas que soubesse, 
A noite clara que vivi.
Aonde está minha noite agora?
Aonde está o sono que perdi? 

Eu queria apenas que soubesse, 
O dia escuro que passei. 
Aonde está meu dia agora?
Aonde está o sol que eu não vi? 

Tão perto, perto ele está.
Mas, longe demais pra brilhar. 
Perto ele está.
Longe demais.

Eu queria apenas que soubesse, 
O grande sonho que sonhei. 
Aonde está meu sonho agora? 
Aonde está o sonho que morreu? 

Eu queria apenas mais um dia. 
Um desejo, um beijo, um olhar.
Aonde está sua boca agora?
Aonde estão seus lábios e os meus?

Tão perto, perto ele está 
Mas, longe demais pra beijar. 
Perto ele está. 
Longe demais.  

Aonde está você agora?
Aonde está você que não está aqui?

Tão perto, perto ele está.
Mas longe demais pra ficar.
Perto ele está.
Longe demais.

Carta à imaginação (Danielle T. T. Monteiro)

Gosto de cheirar o vento
Vento que sopra ao relento
Sinto o cheiro das folhas magras no inverno
Sinto o cheiro das tempestades no verão
Sinto-me despida na lua
Sinto-me perdida no chão
Voo correntezas grandes dos rios
Nado nas areias do sertão
Só não me perca
Minhas asas são feitas de algodão
Sim, sou mesmo estranha
Minha cabeça é feita de imaginação.

Ameaças e cortinas (Danielle T. T. Monteiro)

Ameaças são como cortinas
Elas impedem aqueles que querem ver
Bloqueiam sentimentos
E separam

Ameaças são como cortinas
Elas limitam a luz do sol
Trazem escuridão
E distanciam.

Ameaças são como cortinas
Elas dificultam a troca de ar
Trazem abafamento
E sufocam.

Ameaças são como cortinas
Elas nos fazem dormir
Trazem pesadelos
E amedrontam.

Ameaças são como cortinas (mas não protegem)
Elas são blackout da alma
Trazem a maldade
E fim. 

Carta à infância (Danielle T. T. Monteiro)
(Para minha pequena grande Agnes)

 Menina que chega sapeca   
Amanhece com as pupilas abertas
Menina que chega contente
E alegra o coração da gente
Menina que chega faminta
E come toda minha comida
Menina que chega brincando
Transforma meu coração em encanto
Menina que chega nervosa
Não sabe a nota da prova
Menina perseverante
Ganha sempre nove radiante
Menina dançarina
Dança a dança da vida
Menina que aceitou a vida
Tornou-se minha mulher preferida

O ver sem sentido (Danielle T. T. Monteiro)

Ela não via a cena que passava em seus olhos 
Não via o menino correndo na praça
Não via o sol bater na torre da igreja
Não via a chuva chegar de mansinho, intensa
Ela não via a mulher que a olhava, sorrateira
Não via o violeiro a tocar
Não via o dia se desfazer em suas milhares de cores
Ela via letras, imagens
Via menino, sol, igreja, chuva e mulher
Via milhares de cores, filtradas
Via as mesmas imagens que se desfaziam em sua frente, pela tela do celular
Ela procurava um sentido para sua vida
Não via que fazia parte da cena que se desfazia, em sua falta de olhar.

Uma loja chinesa em Coimbra (Danielle T. T. Monteiro)

A loja era grande 
Os olhos pequenos
As prateleiras pequenas
O sorriso grande
Os corredores grandes
A estatura pequena
O destino pequeno
A origem grande
Entre portugueses e chineses
O encontro entre dois povos
União do grande e do pequeno
Gigante encontro
Enorme se fazendo vivo
Viva cena da diversidade na cidade

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