#Imersão: CTI: sobre sentimentos que atravessam

O ambiente é hostil. O barulho das máquinas se faz alto e constante. Elas lutam na manutenção das pequenas vidas que ali estão. Ali não se reconhece dia e noite, nem calor ou frio. A luz intensa e o ar condicionado nos congela na permanência do dia, ou na ilusão de que ainda ele esteja lá fora. Com isso, os dias são longos. Nunca escurece, ou talvez esteja sempre escuro e a gente nem saiba. O tempo se faz inimigo nesse lugar, ele nunca passa. Por horas, penso que estou em um lugar fora do mundo, atemporal, assimétrico, arrítmico. Estou em um CTI infantil. Não é a primeira vez que me vejo aqui, mas sempre espero ser a última.

São muitos leitos, quase infinitos à minha percepção. Cada um separado por uma pequena divisória. Uma cortina se faz de porta. Ela é verde clara e não impede o acesso de ninguém. Ali não existe privacidade. O ambiente não cabe isso, nem a condição humana ali existente. Você sempre sabe o que acontece no “quarto” ao lado. Isso não é bom. Os sentimentos atravessam paredes, cortinas, falsas portas, muitas máquinas. Cortam nossa carne, invadem nosso corpo.

O barulho do “pi, pi, pi” reina na sonoridade. Nunca se ouve o som do silencio. Mas, às vezes, o “pi, pi, pi” perde para o som do respirador de uma das crianças. Às vezes, escuta-se também um choro intenso, forte, são os berros de uma das crianças que acabou de acordar. Em outros momentos escuta-se um choro silencioso, contido, choro desesperado de uma mãe com medo. Trata-se de um choro real, daqueles que se chora com a alma, não existe platéia ali. É apenas você, chorando com você mesmo. O choro atravessa.

De repente, uma das enfermeiras liga a música do Patati Patata, sei que são nove horas da manhã, ontem olhei no relógio. Trata-se de um ritual sagrado para as crianças. A música começa. Ela pára, imediatamente, o choro daquele que sofre. Parece um bálsamo que se espalha pelo ambiente. Ela traz um pouco de luz, traz um sorriso, mostra que existe um mundo de cores lá fora. As cores atravessam.

Por mais que nada estivesse bom por ali, algo me chama a atenção, mais uma vez o trabalho. Começo a reparar, no meio do caos, os profissionais trabalhando. Cada um cuida, delicadamente, quase compulsivamente, do paciente de sua responsabilidade. De repente, uma das máquinas apita de forma diferente. Alguém corre, todos olham. Mais que depressa, todos vão ao encontro do colega que precisava de ajuda. Eles começam a trabalhar juntos, solidários. Não existe divisão de trabalho. O objetivo é comum. Foi bom ver isso. A solidariedade atravessa.

Levanto-me da cadeira. Fico em pé ao lado do leito. Silenciada pelo medo, meio perdida no ambiente hostil. De repente, chega uma enfermeira e me dá um abraço, do nada. Não sei o nome dela, acho que nunca nem a vi ali. Ela corta minha alma, atravessando meu medo, invadindo meu ponto de equilíbrio. Começo a chorar. Assustada, eu pergunto: “O que foi isso?”. Ela me responde: “Eu vi que você estava precisando de um abraço!”, dá um sorriso, vira as costas e sai. Eu, permaneço ali, olhado para o leito, silenciada, mas com a certeza de tudo daria certo. Há esperança ali. A esperança atravessa, em forma de abraço.

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10 Comments

  1. Ai, que angústia que senti nesse texto! Me vi ao seu lado, ouvindo esse barulho, que é mesmo infernal… senti sua agonia… nossa, seu texto é mesmo poderoso! Espero que nunca pare de escrever e também que nunca mais tenha que “viver” esse lugar, mesmo com esperança.

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