#Imersão: A dialética da casa: habitar ou ser habitado?

Estou sentada na varanda de meu apartamento. Os pés descalços sentem o frio do granito. Fecho os olhos e me entrego a sensação. O tempo sucumbi à memória e me carrega dali. Vejo-me sentada em um alpendre de chão vermelho. É gelado. Minhas mãos deslizam na superfície lisa. Olho uma planta ao canto. Ela é bonita e compõe a cena. Respiro fundo e sorrio sozinha. De repente, o vermelho foi substituído pelo verde. Chão de ardósia. Deito. Deixo o frio penetrar em minha pele. Sinto o cheiro da cera e recordo-me do barulho da enceradeira, afetividade trazida pela sutileza do som. Respiro.

Lentamente, o verde foi se transformando em amarelo. Chão de casa antiga. Mais uma vez, o cheiro torna-se lembrança afetuosa. Entrego-me ao frio. A sensação de deitar no amarelo era como se meu corpo se desprendesse da gravidade. Eu me perdi ali.

A planta vivia na transformação da cena, floria e desfloria. Ela compunha todas as memórias. Ostentava e marcava a saudade. Outro respiro.

Volto ao local de origem. Olho as horas. Cinco minutos apenas. Por cinco minutos fui habitada por todas as casas que habitei. Elas estavam vivas em minhas sensações. Frias, mas quentes. Presentes nas cores que marcaram a minha história.


Hoje sou convocada a habitar minha casa. Uma dialética irracional: habitar o que habitava sem habitar. Marcas de um confinamento. Eu nunca tinha sentido o gelado da varanda em meus pés. Saí dali e comecei a reparar minha casa. Senti cada detalhe através do olhar. A decoração denunciava o gosto. O porta-retrato, encima do móvel da sala, marcava a lembrança. O sofá riscado expunha a infância que passou por ali. A santa no oratório escancarava a saudade. E o edredom manchado remetia ao gosto da amora. Há tempos não vivia minha casa. Há tempos não sentia a memória carregada por ela.

E assim, a dialética da casa tornou-se compreensível: habitar é ser habitado. A casa que habito é a mesma que habita em mim.

Estou sentada na varanda de meu apartamento. Os pés descalços sentem o frio do granito. Fecho os olhos e me entrego a sensação. O tempo sucumbi à memória e me carrega dali. Vejo-me sentada em um alpendre de chão vermelho. É gelado. Minhas mãos deslizam na superfície lisa. Olho uma planta ao canto. Ela é bonita e compõe a cena. Respiro fundo e sorrio sozinha. De repente, o vermelho foi substituído pelo verde. Chão de ardósia. Deito. Deixo o frio penetrar em minha pele. Sinto o cheiro da cera e recordo-me do barulho da enceradeira, afetividade trazida pela sutileza do som. Respiro.

Lentamente, o verde foi se transformando em amarelo. Chão de casa antiga. Mais uma vez, o cheiro torna-se lembrança afetuosa. Entrego-me ao frio. A sensação de deitar no amarelo era como se meu corpo se desprendesse da gravidade. Eu me perdi ali.

A planta vivia na transformação da cena, floria e desfloria. Ela compunha todas as memórias. Ostentava e marcava a saudade. Outro respiro.

Volto ao local de origem. Olho as horas. Cinco minutos apenas. Por cinco minutos fui habitada por todas as casas que habitei. Elas estavam vivas em minhas sensações. Frias, mas quentes. Presentes nas cores que marcaram a minha história.

Hoje sou convocada a habitar minha casa. Uma dialética irracional: habitar o que habitava sem habitar. Marcas de um confinamento. Eu nunca tinha sentido o gelado da varanda em meus pés. Saí dali e comecei a reparar minha casa. Senti cada detalhe através do olhar. A decoração denunciava o gosto. O porta-retrato, encima do móvel da sala, marcava a lembrança. O sofá riscado expunha a infância que passou por ali. A santa no oratório escancarava a saudade. E o edredom manchado remetia ao gosto da amora. Há tempos não vivia minha casa. Há tempos não sentia a memória carregada por ela.

E assim, a dialética da casa tornou-se compreensível: habitar é ser habitado. A casa que habito é a mesma que habita em mim.

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