Sangrar é uma forma de existir, 2002 – Fragmento 2

Sangrar é uma forma de existir – Fragmento 2, 2022-atual (Tecido, impressão do corpo em tinta acrílica e bordado)

Este trabalho teve início em 2022 e surge a partir de uma crítica aos trabalhos de Antropometria de Ives Klein, no qual o artista utilizou corpos femininos na construção de sua obra. No vídeo performance de criação dessa obra, o artista manipula corpos nus de mulheres e cobertos com tinta azul, imprimindo uma marca sobre a tela mediante uma plateia composta basicamente por homens. Fica claro o uso do corpo feminino como objeto de construção da obra, na qual o resultado se sobrepõe ao processo, perdendo a visão política, social e crítica da objetificação do corpo feminino.

No incomodo a este trabalho, meu corpo foi coberto de tinta vermelha e grafado sobre um tecido (americano cru). O vermelho foi utilizado como forma de oposição ao azul, ainda que sejam cores complementares. A partir daí, a construção do bordado sobre o tecido foi subjetiva. Cada mulher foi convidada a bordar o pano, de forma livre, mas sempre nos tons de vermelho. Assim, “a palavra, antes de querer dizer alguma coisa, antes de significar, é um simples traçar” (DELIGNY, 2015).

Este traçar

de antes da letra

eu não cessarei de ver aí

o que nenhum olhar

fosse ele o meu

jamais verá

o humano está aqui

talvez simplesmente

sem pessoa no acorde

sem voz

esse TRAÇAR aqui vem de minha mão

[…]

e tudo o que posso escrever vem deste TRAÇAR

que nem todos os escritos do mundo

arriscam calar.

(DELIGNY, 2015)

Bordar, do dicionário, significa aquilo que margeia, fica à beira, delimita. No bordado as palavras falam sem barulho e cosem fragmentos. Eles são arrancados do corpo para construir uma trama que se sustenta em si mesma, de linhas e imagens e não de enredo e ações.

[…] lendo e cosendo encontro uma paz moderada ao fim do trabalho que já se continua notro tecido, e noutro lugar […] (LLENSOL, p. 14)

A construção de uma narrativa/fragmento da história também está presente na proposta. A ideia é que cada mulher grave um áudio de 3 min relatando uma situação de violência vivenciada, algo que tenha atravessado o corpo, marcado e que, de alguma forma, foi costurado pelo tempo em cicatrizes invisíveis, ou que estão na borda do corpo.

Situo-me historicamente ao lado de outras mãos que bordariam tecidos de outra época. Pergunto que sentido darão, quando o encontrarem, ao inseto que conheci hoje. Passo da escrita ao bordado, traduzindo como se ambos fossem a minha palavra, por momentos esqueço-me mesmo de que bordo, de tal modo os meus dedos se tornaram destros e o meu pensamento, refletido sobre o bordado, um pensamento. Com um livro, escreve-se outro livro. (LLENSOL, p. 12)