Sangrar é uma forma de existir – Fragmento 2, 2022-atual (Tecido, impressão do corpo em tinta acrílica e bordado)
Este trabalho teve início em 2022 e surge a partir de uma crítica aos trabalhos de Antropometria de Ives Klein, no qual o artista utilizou corpos femininos na construção de sua obra. No vídeo performance de criação dessa obra, o artista manipula corpos nus de mulheres e cobertos com tinta azul, imprimindo uma marca sobre a tela mediante uma plateia composta basicamente por homens. Fica claro o uso do corpo feminino como objeto de construção da obra, na qual o resultado se sobrepõe ao processo, perdendo a visão política, social e crítica da objetificação do corpo feminino.
No incomodo a este trabalho, meu corpo foi coberto de tinta vermelha e grafado sobre um tecido (americano cru). O vermelho foi utilizado como forma de oposição ao azul, ainda que sejam cores complementares. A partir daí, a construção do bordado sobre o tecido foi subjetiva. Cada mulher foi convidada a bordar o pano, de forma livre, mas sempre nos tons de vermelho. Assim, “a palavra, antes de querer dizer alguma coisa, antes de significar, é um simples traçar” (DELIGNY, 2015).
Este traçar
de antes da letra
eu não cessarei de ver aí
o que nenhum olhar
fosse ele o meu
jamais verá
o humano está aqui
talvez simplesmente
sem pessoa no acorde
sem voz
esse TRAÇAR aqui vem de minha mão
[…]
e tudo o que posso escrever vem deste TRAÇAR
que nem todos os escritos do mundo
arriscam calar.
(DELIGNY, 2015)
Bordar, do dicionário, significa aquilo que margeia, fica à beira, delimita. No bordado as palavras falam sem barulho e cosem fragmentos. Eles são arrancados do corpo para construir uma trama que se sustenta em si mesma, de linhas e imagens e não de enredo e ações.
[…] lendo e cosendo encontro uma paz moderada ao fim do trabalho que já se continua notro tecido, e noutro lugar […] (LLENSOL, p. 14)”
A construção de uma narrativa/fragmento da história também está presente na proposta. A ideia é que cada mulher grave um áudio de 3 min relatando uma situação de violência vivenciada, algo que tenha atravessado o corpo, marcado e que, de alguma forma, foi costurado pelo tempo em cicatrizes invisíveis, ou que estão na borda do corpo.
Situo-me historicamente ao lado de outras mãos que bordariam tecidos de outra época. Pergunto que sentido darão, quando o encontrarem, ao inseto que conheci hoje. Passo da escrita ao bordado, traduzindo como se ambos fossem a minha palavra, por momentos esqueço-me mesmo de que bordo, de tal modo os meus dedos se tornaram destros e o meu pensamento, refletido sobre o bordado, um pensamento. Com um livro, escreve-se outro livro. (LLENSOL, p. 12)







