
O tempo atravessa o corpo e marca a pele, cria linhas e rachaduras. A água seca e acentua a marca. Um corpo envelhece. Outros corpos contrastam-se no contato e algo desaparece no todo. Um corpo deixa de ser visto, é esquecido nas marcas, no cabelo branco e no conhecimento acumulado. Uma ancestralidade é negada na falta de conhecimento de outros corpos. E o imperativo da juventude (e da dominação) apresenta-se como caminho imposto. Submete o corpo à faca, à substância que paralisa, ao imaginário prescrito na bula do remédio. O caminho bifurca-se entre o imperativo e o apagamento. Diante do rosto imóvel, do corpo dominado ou do corpo apagado, outro imperativo: o tempo. Soberano, ele consome todos os corpos, independentemente do caminho. Não há o que fazer. E a dialética do senhor e do escravo denuncia a relação, na transposição da antítese. O corpo marcado é um corpo que resiste, saí da posição de escravo e transforma-se na questão central e oposta a um sistema de dominação e controle. Ele luta, tenta manter a subjetividade e o conhecimento acumulado, carrega mães, avós e mães de avós numa corrente indissociável de luta e afirmação. E, ao mesmo tempo que sofre com a borracha social, banca o desejo em não ser parte, reconstrói a síntese e, de alguma forma, utiliza o vazio da norma para ser livre. Abordar o corpo marcado é o ponto central da proposta de performance que se apresenta. Buscaremos falar das marcas sobre a pele, do tempo, das invisibilidades, apagamentos e outros atravessamentos causados pelo processo de envelhecimento, em uma sociedade regida por relações sociais, econômicas e políticas perversas, determinadas pelo sistema capitalista de produção e consumo que define o que é produtividade. Dessa forma, a proposta busca suscitar reflexões diversas e abertas que vão desde um questionamento sobre o tempo, sobre as marcas na pele, sobre a invisibilidade e o apagamento e, até mesmo, do que é considerado produtividade nos dias atuais. Para isso, tomamos como matéria o barro, que contempla características físicas que permitem uma associação simbólica com as reflexões possíveis dessa performance (o tempo, as marcas na pele, a invisibilidade e o apagamento, e o processo de produção e consumo). Além disso, a expressão popular “amassar barro” traz uma metáfora que se soma à proposta, no sentido de significar “pelejar, realizar uma tarefa cansativa e repetitiva para se obter o resultado desejado”. Nesse aspecto, podemos pensar tanto no processo de dominação dos corpos, no qual as mulheres ficam “amassando barro” para burlar o tempo (tarefa inócua), quanto na falta de sentido atribuída ao processo de envelhecimento na sociedade contemporânea. Nesse aspecto, amassa-se o barro para que? Extrapolando os objetivos definidos pela proposta, ela pode suscitar ainda uma reflexão sobre a morte, fim de todos os corpos.
Performance realizada em Maio de 2023, na Escola Guignard, com Marina Mascarenhas e Vânia Barbosa.
Orientação de Marco Paulo Rolla




Fotos a seguir de Gilberto Goulard




































