Corpo-ruína

O tempo atravessa o corpo e marca a pele, cria linhas e rachaduras. A água seca e acentua a marca. Um corpo envelhece. Outros corpos se contrastam no contato e algo desaparece no todo. Um corpo deixa de ser visto, é esquecido nas marcas, no cabelo branco e no conhecimento acumulado. Uma ancestralidade é negada na falta de conhecimento de outros corpos. E o imperativo da juventude (e da dominação) apresenta-se como caminho imposto. Submete o corpo à faca, à substância que paralisa, ao imaginário prescrito na bula do remédio. O caminho bifurca-se entre o imperativo e o apagamento. Diante do rosto imóvel, do corpo dominado ou do corpo apagado, outro imperativo: o tempo. Soberano, ele consome todos os corpos, independentemente do caminho. Não há o que fazer. E a dialética do senhor e do escravo denuncia a relação, na transposição da antítese. O corpo marcado é um corpo que resiste, saí da posição de escravo e transforma-se na questão central e oposta a um sistema de dominação e controle. Ele luta, tenta manter a subjetividade e o conhecimento acumulado, carrega mães, avós e mães de avós numa corrente indissociável de luta e afirmação. E, ao mesmo tempo que sofre com a borracha social, banca o desejo em não ser parte, reconstrói a síntese e, de alguma forma, utiliza o vazio da norma para ser livre.

Abordar o corpo marcado é o ponto central da proposta de foto performance “Corpo-ruína!” que surge a partir de uma performance chamada Mulherbarro (2023), realizada pelas artistas Danielle Monteiro, Vânia Barbosa e Marina Mascarenhas (Escola Guignard).

As fotos apresentas em Corpo-ruína referem-se à percepção de Danielle Monteiro sobre as ruínas que carregamos na pele, que falam das marcas, do tempo, das invisibilidades, apagamentos e outros atravessamentos causados pelo processo de envelhecimento. A proposta das fotos busca suscitar reflexões diversas e abertas que vão desde um questionamento sobre o tempo, sobre as marcas na pele, sobre a invisibilidade e o apagamento e, até mesmo, do que é considerado produtividade nos dias atuais. Para isso, tem o barro como matéria, que contempla características físicas que permitem uma associação simbólica com as reflexões possíveis dessa performance realizada. Além disso, a expressão popular “amassar barro” traz uma metáfora que se soma à proposta, no sentido de significar “pelejar, realizar uma tarefa cansativa e repetitiva para se obter o resultado desejado”. Nesse aspecto, podemos pensar tanto no processo de dominação dos corpos, no qual as mulheres ficam “amassando barro” para burlar o tempo (tarefa inócua), quanto na falta de sentido atribuída ao processo de envelhecimento na sociedade contemporânea. Nesse aspecto, amassa-se o barro para que? Extrapolando os objetivos definidos pela proposta, ela pode suscitar ainda uma reflexão sobre a morte, fim de todos os corpos.

Barro sobre o corpo em papel canson 300 – 30x40cm

Barro sobre o corpo em papel canson 300 – 30x40cm

Barro sobre o corpo em papel canson 300 – 30x40cm

Barro sobre o corpo em papel canson 300 – 30x40cm