Espaço reservado para olhares que subvertem a métrica

Essa parte é reservada para aqueles grandes amigos compulsivos pela arte de observar e escrever. Trata-se do olhar que gera transformação ou derruba a ordem estabelecida. Palavras de olhares que subvertem a métrica em narrativas quase poéticas, que retratam a captura do cotidiano sob um ponto de vista específico: o próprio.


“NÃO SE TRATA DE SIMPLES MANIFESTAÇÃO MECÂNICA
NÃO PRECISA BATER NO COMPASSO DA MÉTRICA
ARREBENTAREMOS AS PAUTAS E NOTAS
TÍMPANOS, PÍFANOS, SOPRANOS, MAESTROS
CARTÕES DE PONTO E A PALMA.”

OSWALDO MONTENEGRO

A Carta (por Élida Coelho)

Era para ser apenas mais uma...
Afinal, era só uma carta.
Cheia de medo, raiva, ciúmes.
Era o desespero.
Era só mais uma carta.
Era confusão.
Adolescência conturbada.
Aos 17 anos, diagnóstico de depressão.
Infelizes escritos, infelizes desabafos.
A carta tomou outra proporção.
A carta a condenou.
Condenou quem já estava condenada pelas emoções.
Era só um desabafo.
Era apenas uma carta.

O Lar, Abrigo (por Élida Coelho)

Não importa se a casa é nova ou velha.  
Se tem lustres de cristais ou simplesmente uma vela.
Se o chuveiro é serpentina ou hidromassagem.

Cada lar é um abrigo, que abriga nosso amor, nossos sonhos, nosso personagem.
Abriga alguém que a gente nunca quer ver indo embora.

Cada casa tem seu estilo.
Janelas largas, portas estreitas, de ferro ou madeira.
Tem seu modelo, de tijolo ou barro.

Mansão, casa, porão ou barracão.
Cada lar tem sua história, sua cultura.
Comer na mesa ou na frente da tv enquanto passa o programa que a família gosta de ver.
Não é certo ou errado, nem falta de etiqueta ou elegância.
Cada um pega o prato, inicia a comilança.

Cada lar tem seu segredo.
Aquele que pedimos silêncio quando chega a visita.
Tem os medos, tem as brigas.
Tem os traumas e as histórias mal resolvidas.

As certezas e as incertezas.
Embora se ganhe o mundo, é pra la que se quer voltar.
Arroz e feijão na panela, melhor refeição não há.
Contar as moedinhas para o pão ir buscar.

Cada um de nós possui abrigo.
Seja em alguém ou em algum lugar.
Abrigo, esse que nosso coração quer repousar.